“Escreva sobre o que você sabe”: esse conselho é uma droga!

Entenda por que o conselho "escreva sobre o que você sabe" é um dos piores no que diz respeito a conselhos dentro da escrita criativa.
Escreva sobre o que sabe e não sabe

Por que escrever o que você sabe é uma droga de conselho?

Não me lembro quando foi a primeira vez que eu ouvi o conselho “escreva sobre o que você sabe”. Isso virou um lugar-comum tão apreciado no submundo do conteúdo que se tornou uma espécie de ditado entre os criativos. Principalmente entre escritores criativos.

“Escreva sobre o que você sabe” é um conselho ruim porque ele é incompleto. A criatividade não se justifica só pelo que você já teve acesso. Ela também se justifica pelo que você escolhe acessar durante o processo criativo.

O conselho melhorado deveria ser assim: escreva sobre o que você sabe e sobre o que você não sabe. Melhor ainda: escreva bastante sobre o que você sabe, mas escreva muito mais sobre o que não sabe. Agora assim estamos começando a melhorar o dito popular da escrita.

 

O primeiro passo é mais claro do que os demais

“Escreva sobre o que você sabe” é um conselho ruim porque não permite adaptação. O autor Chris Guillebeau escreveu que talvez a maior adaptação à vida em “casa”, seja lá onde ela for, é entender que você se tornou alguém diferente de quando começou. E é possível notar que ele sabe sobre o que está falando. Ele foi uma das poucas pessoas no mundo que conheceu os 193 países-membros da ONU. Isso significa que Chris foi um dos poucos a visitar 100% dos países desse mundão. O cara é fora da rota.

– A maior adaptação à vida em “casa”, seja lá onde ela for, é entender que você se tornou alguém diferente de quando começou. (Chris Guillebeau)

 

Quando Chris diz que nós devemos captar que nos tornamos alguém diferente de quando começamos, ele demonstra saber algo básico sobre qualquer jornada: a aprendizagem não está antes de se iniciar a estrada, apenas. A aprendizagem está no percurso da estrada, também. E é nessa estrada que encontraremos nossos monstros, nossos vilões, mas também nosso mundo de criatividade.

 

Uma estrada de quadrados: o que há no 11º? O que há no 50º? E no 57º?

Imagine o seguinte: existe uma estrada a ser percorrida. Essa é a estrada de vários artigos, conteúdos ou vídeos que você deve fazer. Essa estrada é composta por 1000 quadrados de 1 metro cada um. Cada quadrado traz uma pista de como você chegará a um destino. Cada quadrado vai te dar uma dica diferente que te fará ficar melhor em atingir o objetivo específico de criação de conteúdo.

Se você olhar para o primeiro quadrado logo à sua frente, você verá com clareza a pista número 1. Se você olhar o segundo quadrado, também verá com clareza a pista número 2. Entretanto, lá pelo quadrado número 5, você já começará a ter dificuldades de enxergar o que está escrito como pista. O 11º quadrado já é um borrão completo, e o 74º não está nem em seu campo de visão.

Está começando a entender?

Para que você possa enxergar mais adiante, você terá que dar um passo até o primeiro quadrado; depois, terá que dar mais um passo até o segundo. Quando mais você anda, mais você consegue encontrar o que vem a seguir.

 

Para escrever sobre o que você não sabe, você precisa de duas coisas: 1. um ponto de partida (uma simples ideia) e 2. andar um passo de cada vez.

Com a escrita, é justamente assim que funciona. Você começa com uma ideia do que irá escrever. Entretanto, a genialidade vai aparecendo conforme você produz seu conteúdo.

Por isso, o conselho “escreva sobre o que você sabe” é ruim. Ele não te permite dar o próximo e o próximo e o próximo passo necessário para que você cresça.

 

O que são as conexões e por que elas te ajudarão a escrever sobre o que você NÃO sabe

Vejo que as pessoas têm dificuldade de criação de conteúdo porque pensam que sabem pouco. Isso é um mito. É só você olhar ao redor. Na realidade, nós recebemos informações todos os dias, de todos os lugares. Por nos acharmos pequenas demais, ou por acharmos que sabemos pouco demais, ficamos estagnados ao receber muitas informações. E, no fim das contas, não fazemos nada a respeito disso. Não aproveitamos o embalo para criar algo de valor. Não aproveitamos o embalo para quebrar o status quo.

Uma das maiores referências sobre a inovação e conexões do mundo – a Apple – pensa o seguinte sobre o status quo:

E como fazer isso? Como pensar diferente? Como ter ideias para que essa conexão aconteça?

Veja bem. Eu consigo receber informação gratuita o dia inteiro, de todos os lados. Posso entrar nesse momento em uma boa página de notícias, para saber o que está acontecendo no mundo. Posso, sabe, entrar em um blog brasileiro sobre celebridades americanas.

Se eu vejo, por exemplo, que estão cogitando Leonardo DiCaprio para ser o Coringa, já consigo pensar em pelo menos dois ou três conteúdos sobre isso. Eu procuro criar com a base disso. E a partir de uma ideia – que me foi dada por um site de fofocas! – já posso começar minhas conexões.

O interessante é saber os assuntos sobre o que você escreve, e então criar com o que surge.

Anote essa fórmula por aí…

Escrever = assuntos sobre os quais eu falo + tudo o que surgir.

 

Parece estranho pensar nisso? Então vejamos na prática.

Assuntos sobre os quais eu falo: empreendedorismo, desenvolvimento pessoal, jornadas, biografias, tutoriais, escrita, carreira, produtividade…

Parecem temas sérios demais, não é mesmo?

Então vamos aplicar a segunda parte da soma.

Tudo o que surgir: bem, para mim, acabou de surgir esta notícia… Warner estaria tentando colocar Leonardo DiCaprio no filme sobre a origem do Coringa. Legal.

Quando eu começo a fazer essas conexões, uma série de possibilidades aparece em minha mente. Basta eu parar para pensar por alguns poucos minutos. Eu prevejo já alguns temas, do tipo:

  1. Jornadas também são sobre diversão… veja o que o vencedor do Oscar vai fazer agora (aqui, misturo jornadas e biografias com a notícia)
  2. O que O Lobo de Wall Street e O Coringa podem te ensinar sobre metas… (aqui, misturo empreendedorismo com a notícia)
  3. Uma regra sobre poder e diversão: faça o que ninguém esperava e chame atenção (aqui, misturo carreira com a notícia)

Eu poderia ter feito a mesma coisa com uma notícia sobre Sam Smith. Só que sobre ele não sei nada – e, para ser sincera, não me importa muito. É assim que você concatena a parte de escrever sobre o que não sabe com o que você já sabe.

 

Como assim escreva sobre o que sabe / o que não sabe? (A EXPLICAÇÃO)

Escreva sobre o que você JÁ SABE e sobre o que você NÃO SABE.

No exemplo, eu não sabia: que o DiCaprio estava cotado para Coringa.

No exemplo, eu já sabia: sobre o DiCaprio ter vencido um Oscar (mistura número 1 com o tema ‘jornadas’); sobre o DiCaprio ter feito O Lobo de Wall Street (mistura número 2 com o tema ‘empreendedorismo’); sobre o DiCaprio ter feito O Lobo de Wall Street (mistura número 2 com o tema ‘empreendedorismo’).

Em todos os casos, meu texto seria único. Por que? Porque, no fim das contas, eu misturaria o tema do texto com o fato de o DiCaprio ter sido cogitado para ser o Coringa. Eu misturaria o que eu não sabia com o que eu já sabia!

 

Escreva sobre o que você gosta e sobre o que você não gosta

Não escreva sobre o que você sabe.  Ao invés de escrever sobre o que você sabe, escreva sobre o que você gosta. E também sobre o que você não gosta.

Eu não curto arte abstrata. Eu adoro livros de fantasia. Não curto sermões longos. Amo aulas didáticas, mesmo sendo sobre conteúdos que eu não domino.

Sei que as minhas opiniões sobre o mundo atraem pessoas que gostam do que eu gosto. Elas também mantêm afastadas pessoas que não acreditam ou que não confiam no que eu falo. Opinião bem formulada te posiciona como um bom líder em tudo o que você se propuser a liderar.

Por isso eu defino o que eu gosto e o que eu não gosto. Fazer isso é como uma ferramenta para mim. É uma ferramenta que eu posso utilizar para produzir conteúdo o tempo inteiro. É uma ferramenta para realizar as tais conexões.

 

 

Depois de fazer minha lista, posso procurar entender mais sobre cada assunto e replicar esse assunto no blog.

Escrever sobre o que eu gosto e não gosto também produz o sentimento de empatia.

 

Produza conteúdo que provoque empatia

Escrever sobre o que você gosta produz empatia. Empatia é uma das melhores formas de conexão que existem. Entenda com quem você está falando. Produza seu conteúdo a partir daí, com base no que você gosta e não gosta.

Você já ouviu falar do Whindersson Nunes? Põe o cara no Google. É o maior Youtuber do Brasil. O Canal do Winds no Youtube é tranquilão, cheio de piadas inteligentes, bem empregadas, sem ofensas, super paz e amor. Ele sabe provocar empatia com o próprio público. Ele fala sobre escola de rico, escola de pobre. Pai rico, pai pobre. E mistura as próprias histórias no meio para demonstrar empatia. Isso é amor.

 

Escreva sobre o que você vive

Uma das maneiras mais inteligentes de aproveitar a jornada é documentá-la. As melhores formas de documentação de uma jornada hoje são blogs, fotos ou vídeos. Querendo ou não, você vai ter uma maior afinidade com um desses três. Em qualquer desses casos, você terá a tarefa de produzir conteúdo. Encontre o que você acha mais legal dentre e invista seu tempo nisso. Evite ao máximo os detalhes técnicos que não são conectados com o que você está fazendo nesse momento. Fique muito, muito bom nos detalhes técnicos diretamente ligados ao que você faz. Melhore muito a cada dia. Repita a dose.

Por isso, ao escrever sobre o que você gosta ou não gosta, faça o seguinte: escreva sobre o que você vive. Essa é uma maneira poderosa de documentação com produção de conteúdo. E escreva sobre o que você vive hoje. Muito mais importante do que viver no passado (uma das causas de depressão) ou no futuro (uma das causas de ansiedade), procure viver no presente. Entenda o que te trouxe até aqui e caminhe em direção ao que você quer, mas aproveite a jornada, aproveite o dia a dia e mantenha a cabeça no lugar.

Se você ainda não tem moral, não seja genérico

Quando você tem a incumbência de melhorar muito a cada dia no que você já faz bem (e gosta), você vai sempre além do que você já sabe.

Se você vive no mundo fitness, as pessoas chegarão até você com problemas gigantes nesse nicho. Se você vive no mundo do desenvolvimento pessoal, as pessoas chegarão até você com problemas gigantes nesse nicho. Se você vive no mundo criativo, no mundo da arquitetura, no mundo da publicidade, no mundo da saúde… adivinhe só? As pessoas chegarão até você com problemas gigantes nesses nichos.

Não responda a essas pessoas com achismos e termos genéricos. Se você ainda gagueja na resposta, isso é um sinal de que há uma importante lacuna a ser preenchida. Então preencha. Crie sua teoria para cada uma dessas respostas, mas confirme-a para si mesmo. Então, reafirme sua tese para os outros com bastante conteúdo de qualidade. É assim que se constrói habilidade e moral ao mesmo tempo.

Nessa mesma linha sobre ser genérico no conteúdo, entra o lance do cara com bom currículo… :/

 

Escreva sobre o que você não sabe, AINDA QUE você tenha um bom currículo

Já vi gente com mestrado e doutorado tentando tratar o próprio conteúdo como a salvação do Planeta Terra sem demonstrar o porquê. Essas pessoas geralmente querem justificar genialidade com o título. Do tipo: “acredite em mim, porque sou doutor em minha área”, no lugar de construir argumentos concretos. E então as pessoas vêm com dúvidas e com problemas gigantes, e qual é a resposta do especialista? “Acredite em mim, eu sou formado nisso”. Micão, vei.

Currículo é para entrevistas de emprego. Concordo. Não é para produção de conteúdo. Isso é que nem você sair com uma pessoa que parece super legal e ela começar a te jogar conteúdo de trabalho. É um saco. É a mensagem errada na hora errada.

As pessoas só vão confiar em você se você construir uma comunicação com argumentos fortes. E você tem que se lembrar de sempre manter a moral, uma vez que ela for conquistada.

Quer um exemplo claro? Eu torço para o Botafogo. Só porque time é assim, né… uma vez torcedor, sempre torcedor. A verdade é que se o Botafogo já foi o melhor time da década de 1940, se já teve Garrincha e Nílton Santos, grandes coisas. Não importam os títulos antigos se, na prática, o time está uma droga hoje.

Sim, eu sei, eu sei. Mesmo assim, eu continuo torcendo. É assim que funciona no futebol. Mas veja bem: isso é válido no futebol. Para a maioria de nós, realmente futebol são jogos e diversão. Só que, quando nós estamos tratando do tempo das pessoas, não é assim que a coisa funciona. Ou elas veem valor no que você passa ou você é odiado. Ou pior: ignorado.

 

TÓPICOOOS!! TÓPICOSSS!!

Desculpe, eu sei muito bem que, na aprendizagem, nós somos capazes de ENTENDER muita coisa no momento em que estamos na fase de desenvolvimento do conteúdo. Só que eu também sei que conteúdo demais deixa todo mundo #LOKA #LOKA #LOKA, como dizem Simone e Simaria.

Por isso, vou finalizar esse texto com um resumão do que foi falado aqui, nos dois grupos de tópicos a seguir.

 

1. Por que você deve escrever sobre o que você NÃO sabe?

  • Escrever sobre o que você sabe é um conselho incompleto… você deve conectar o que SABE com o que DESCOBRE.
  • Escrever sobre o que você sabe não te permite descobrir, e isso te impede de crescer.
  • Escrever sobre o que você sabe não te permite caminhar pelos caminhos ainda obscuros da estrada. É nesses caminhos que você encontra genialidade.

 

2. COMO escrever sobre o que você não sabe?

  • Faça CONEXÕES. Lembre-se do cálculo: escrever = assuntos sobre os quais eu falo + tudo o que surgir. Inclusive fofocas que surgirem? Oh, yeah.
  • Escreva sobre o que você gosta e não gosta. Gere empatia.
  • Escreva sobre o que você vive HOJE. No presente. Isso te levará para fora de sua zona de conforto.
  • Não seja genérico em respostas a problemas que sua audiência levantar.
  • Não foque em mostrar seu currículo sem antes mostrar seu conteúdo de qualidade.

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