Uma discussão saudável sobre  a depressão
A discussão saudável sobre a morte de Chester Bennington como uma mensagem de alerta para a criatividade sem medo, sem culpa e sem depressão.

Quando a criatividade morre enforcada

No momento em que li um capítulo inteiro sobre a busca de uma vida criativa feliz por Liz Gilbert, em Grande Magia, eu pensei: tenho que repassar isso para o máximo de pessoas possíveis. Quem tem histórias para contar, como eu e você, é criativo de carteirinha assinada e comprovada no cartório. Não há o que se discutir quanto a isso. O que Liz indaga no livro não é a criatividade, é claro que não, até porque ela mesma acredita que todos somos criativos (todos os HUMANOS, nesse caso). O que ela prega é que nós não precisamos (nem devemos!) nos atormentar pela criatividade.

Há um mito, desde os tempos de Shakespeare (na verdade, desde muito tempo antes dele também), de aflição voluntária em prol da originalidade. Sempre houve uma conversa de artista incompreendido, de gênio sofredor, de rockstar drogado, e tudo isso tirou da humanidade pessoas que tinham a capacidade de pensar e criar por puro prazer, mas que foram engolidas por uma imagem generalizada de criativo depressivo.

E isso é um grande paradoxo, porque a arte é tão linda e contagiante para ser algo sofrido, entende?

 

Então vamos falar sobre isso.

Eu não costumo escrever artigos de oportunidade (ou seja, artigos datando as coisas de acordo com algum episódio que acabou de acontecer e está na mídia), porque sei que se alguém entrar em meu site hoje ou amanhã, muito provavelmente lerá temas e artigos sempre atuais, mesmo que não sejam necessariamente recentes. Geralmente, para esse tipo de conteúdo, uso mais os vídeos.

Só que eu vou fazer uma exceção para tratar da morte que aconteceu há pouco tempo, por suicídio, do Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, uma das bandas de rock (ou seria pop? Nu metal? Hip hop?) que mais fizeram parte de minha adolescência. Nesse caso, entra esse meu desvio de conduta (sobre artigos datados) por um simples fato: quero entender e colocar minhas ideias no lugar para tocar nesse assunto, que não é só polêmico, é importante demais e deve ser destrinchado pouco a pouco, com calma, para que o debate correto e saudável seja iniciado.

 

Uma doença de verdade.

Sim, nós devemos discutir sobre isso – mas discutir sobre isso não significa criticar a ação por si só. Estamos tratando de depressão, aqui, uma doença de verdade, embora seja tratada com sarcasmo, por uns, e com extremismo, por outros. Estamos falando não de uma doença rara, que dá em uma pessoa a cada cem milhões. Estamos lidando com uma doença que afeta aproximadamente 322 milhões de pessoas no mundo, de acordo com as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ainda segundo os dados da OMS, o Brasil está acima da média mundial de pessoas com depressão, sendo o país com o maior percentual populacional com a doença, na América Latina (aproximadamente 5,8% dos brasileiros sofrem de depressão, e 9,3% sofrem de ansiedade, que é outra doença extremamente correlacionada com a primeira). Aliás, em ansiedade, somos recordistas mundiais.

Pode ser que você esteja de fora desse número. Só que eu posso estar falando, aqui, de um vizinho seu. Posso estar falando de alguém próximo a você. De um amigo querido. De alguém de sua família. Eu posso estar me referindo a alguém em sua casa. Você pode balançar a cabeça. Essa também é uma doença de negação.

Lembro-me de que era criança quando ouvi falar de alguma celebridade, ou pessoa famosa, que tinha cometido suicídio. Não me lembro quem era a tal pessoa, exatamente. Perguntei ao meu pai por que o fato não tinha passado no Jornal Nacional, ou por que não tinha sido capa do Correio Braziliense, que era o jornal de grande circulação em Brasília, até então. Afinal, a morte era de uma grande celebridade, e grandes celebridades geralmente têm espaço nos noticiários.

Fiquei intrigada, durante muitos anos, com a resposta que ele me deu, e me lembro dela até hoje. Naqueles tempos, meu pai fazia faculdade de jornalismo e sabia muito sobre os bastidores da imprensa, por conta disso, então tudo sobre o assunto eu perguntava para o pai. Foi uma coisa cotidiana, uma pergunta boba de criança, creio até que ele nem se lembraria dessa história, mas a resposta colou em mim como uma verdade universal, desde então. Meu baba me disse que a grande mídia não focava em mortes por suicídio não só porque era um assunto polêmico, mas também porque poderia dar ideias para as pessoas, e ninguém queria ser responsável por isso.

Tá, então é isso? Então devemos simplesmente assistir a este filme, mas fingir que ele não existe?

Devemos desprezar uma doença séria e tratá-la como crime, ou como doença da moda, ou como doença de ricos, ou como doença de criativos, só porque não temos coragem de falar sobre ela? E, por falar em coragem, devemos mesmo tratá-la como coisa de covardes?

Sei lá, é cada besteira que leio quando o assunto volta a se destacar por um tempinho na mídia… e, mesmo assim, o destaque não traz o debate.

Lendo sobre a morte do Chester, por exemplo, percebo que até os textos um pouco mais sérios, que levam a tal objetividade jornalística à risca, têm tom de fofoca. Coisas como: “Linkin Park deixa carta para Chester…” ou “Chester disse em vídeo que precisava de ajuda” ou “Recado de filho de Chester viraliza” ou até mesmo “Linkin Park vende mais CDs agora que Chester se matou”. Velho. Nada sobre a doença. Nada sobre possíveis formas de tratamento. Nem um linkizinho para artigos relacionados eu encontro, se não pesquisar diretamente no Google.

 

Conexões…

Para ser mais honesta, eu não acompanhava a banda, realmente. Só conhecia algumas poucas músicas dela. Isso não significa, entretanto, que essa morte não tenha mexido profundamente comigo, nesses últimos dias.

Tudo em nossa vida é resultado das muitas conexões que vamos fazendo ao longo dela. Nesse lance de ser criativo, é natural sair conectando todas essas coisas soltas que vêm chegando por todos os lados, para criar, às vezes, algo interessante; outras vezes, algo divertido; ou para levantar algumas discussões, como é o caso, agora.

Você já sabe, porque eu acabei de falar ali em cima, que não sou realmente fã, nem mesmo seguidora de Linkin Park. Não pego meus momentos, sei lá, vamos chamar de “livres”, para ouvir o álbum inteiro Meteora, da banda. Aliás, eu só me lembro do nome desse álbum porque, lá no início dos anos 2000, eu o via bastante nas lojas… eu era bem poser e adorava dizer ser rockeira, então ficava procurando uns CDs para gastar os R$ 20,00 que sobravam vez ou outra.

Mesmo assim, cheguei a conhecer algumas músicas da banda, tipo In The End e Numb. Aliás, falou em Linkin Park, já vem o refrãozão em minha cabeça: I’VE… BECOME SO NUMB, I CAN’T FEEL YOU THEEERE!

E assim os anos foram se passando sem eu ouvir falar muito mais de LP. Isso até que…

 

Recebi uma mensagem por Whatsapp!

Como eu falei, criatividade é sobre conexões. Às vezes, você sai para andar de bicicleta com os amigos e acaba escrevendo um livro de ficção sobre as ciclovias ao redor mundo. Acontece.

No início do ano, recebi uma mensagem de uma ex-aluna, a Samantha, hoje uma grande amiga minha, sobre a vida após a aprovação em um concurso público cujo cargo seria objeto de desejo de vááárias e várias pessoas. E não foi com surpresa quando ela me disse o que muitos já me disseram, um fato vivido por mim mesma: só o cargo público e a boa remuneração, com estabilidade, não são o completamente ideal para toda e qualquer situação na vida. Não são a resposta final, embora muitos pensem que sim, antes de chegar lá. Não são o grande sucesso, nem o grande porquê. Na realidade, nem acredito realmente no sucesso como um fim. Na verdade, fui descobrindo aos poucos que o lance não é ter um destino, mas aproveitar a jornada.

Lembro também de uma estagiária que passou pelo TCU, a Cíntia, e acredito que ela tenha entrado em minha vida com o propósito de um dia repassar este conhecimento a mim. Ela disse algo como: até o terceiro ano do Ensino Médio, a minha história era sempre estudar para a UnB. Eu acreditava que se passasse naquele vestibular eu teria zerado a vida. Quando eu vi que não era nada do que eu estava pensando, eu pensei… como assim?

Pois é. Como assim não existe um grand finale? Como assim não existe o momento tá-dááá?

É muito simples. O que vem depois é todo o resto de sua vida. Já pensou se ela fosse zerada aos 16 anos, quando você passa em uma prova?

Há muita coisa boa a se explorar, que vai além das primeiras expedições, que vai além, até mesmo, de grandes resultados.

Daí a Samantha me disse que o próximo passo dela seria dar uma esticada. Falar sobre coisas que ela gostava e espalhar suas aprendizagens para o mundo. A isso eu dou o nome de Pura Diversão. A Samantha escreveu um artigo incrível sobre essa mudança e o compartilhou comigo. Ao final do texto, ela fala de uma música sobre a qual se lembrou, ao escrevê-lo, que dizia bem baixinho o seguinte: vocês tentaram tirar o melhor de mim… vão embora…

Na música, essa frase se repete até o grito final de: VOCÊS TENTARAM TIRAR O MELHOR DE MIM – VÃO EMBORA. Adivinha de que banda era esse som?

Fazia realmente muito tempo que não escutava Linkin Park, e fiquei bem feliz por colocar A Place for My Head em minha playlist regular, mesmo sabendo que não era realmente uma canção nova. Eu sou do tipo que ouve uma love song das rádios dos anos 1990 e fica empolgada com a novidade.

E então aconteceu que, há poucos dias, eu estava esperando um Uber da garagem de um apartamento. O carro me levaria de Blumenau para o aeroporto em Florianópolis, depois de uma viagem super bacana pelo estado de Santa Catarina. Enquanto esperava, peguei o celular e comecei a olhar meu Feed de Notícias do Facebook.

O meu Feed é todo personalizado, e eu sigo geralmente as páginas e pessoas que seleciono (exceto quando o Mark Zuckerberg decide que eu devo ver alguma coisa que ELE ache interessante). Daí me aparece a mensagem do Rodrigo, meu mentor férão, com a hashtag #ripchester, e com um texto se perguntando até quando perderíamos pessoas para a doença do século.

 

Como a depressão funciona?

Eu não sei, realmente. Estou aqui para contar algumas histórias e tentar entender melhor. É um debate aberto a quem quiser e puder compartilhar mais sobre isso.

Sei, e repito, que a depressão é uma doença. A maioria das doenças têm algumas características em comum. Elas são diagnosticadas; elas possuem formas de tratamento; elas às vezes não são curadas, às vezes são; às vezes as pessoas morrem com a doença, mas não da doença.

O Chester não chegou à cura, infelizmente, mesmo procurando tentar alcançá-la, e morreu da doença. Muitas outras pessoas, entretanto (e isso é completamente verdade, sem tirar nem pôr), têm contato com as formas de tratamento da depressão e conseguem sair dessa.

A australiana Bronnie Ware trabalhou como bancária por 10 anos até sair do mundo corporativo e cair, meio que de paraquedas, no universo do cuidado paliativo. Isso significa o seguinte: ela passou do banco para as casas de pessoas impreterivelmente prestes a morrer, mas que precisavam aliviar suas dores brevemente, até que se fossem.

Naturalmente, o convívio com essas pessoas ensinou alguma coisa à Bronnie. Ela aprendeu, por exemplo, que havia certos padrões de arrependimento dos pacientes por terem feito (ou deixado de fazer) algumas coisas durante a vida. E, claro, Bronnie percebeu o que vinha acontecendo, já que transformou essa história em livro (o nome é Antes de Partir, recomendo!).

O mais interessante é que o arrependimento número UM desses enfermos era o de ter vivido a vida que as outras pessoas queriam para eles.

Certo dia, algum tempo depois da jornada de Bronnie como cuidadora, depois mesmo de ela ter passado um ano extra como professora de música para detentas, se bem me lembro, ela estava em casa feliz da vida, sem problemas, sem complicações, e pronta para iniciar uma nova fase.

No dia seguinte, o mundo de Bronnie caiu e ela se viu com uma profunda depressão. Assim: literalmente do dia para a noite. Foi tipo Saramago em Intermitências da Morte, sabe: “e no dia seguinte ninguém morreu”.

Mas é assim que a depressão é quando o atinge pela primeira vez. Ela assume o comando logo de cara. – palavras da Bronnie.

Pode acontecer? Pode. Uma gripe pode surgir do dia para a noite? Sem dúvidas. Como eu digo: depressão é uma doença, então, claro, possui as mesmas características de uma doença.

O caso é que Bronnie não via mais razão para viver. Havia alguns dias em que essa onda passava um pouco, mas em outros a doença voltava a atacar com todas as suas garras. É fato conhecido que não é a tristeza momentânea e mediana um sintoma da depressão (por exemplo: ver um cachorro atropelado na rua me deixa triste). O sintoma mais comum é a falta completa de felicidade, ou até um certo grau de felicidade com motivos, mas cansaço do processo de tentar alcançá-la o tempo todo.

Aliás, vale uma pequena observação aqui: não é fato desconhecido que uma das responsáveis, hoje, por essa sensação de infelicidade constante são as redes sociais, cheias de falsos mundos invejavelmente felizes.

Bronnie aceitou que estava doente e compartilhou esse fato com as pessoas que mais amava. Um amigo ligava todas as noites para conversar um pouco, às vezes deixando mensagens na secretária eletrônica, quando não era atendido.

Eu quero dizer, é melhor você não cometer uma porra de um suicídio. Pegue o telefone. Pare de me ignorar e pegue a porra do telefone.

E ela meio que ria disso.

Até que ela chegou ao dia em que decidira se matar, porque se sentia cansada demais pelo esforço para combater a doença. Escreveu sua carta de despedida, às lagrimas, e pensou em todos os detalhes. Entraria em sua van e se atiraria com o veículo de um penhasco.

Não pense que eu veja qualquer beleza nisso. Quando penso na quantidade de criatividade que foi perdida para a depressão em nossa história, tento intervir, compartilho, escrevo um texto como este, comento textos como este.

 

Cura?

Depressão não é só sobre a depressão em si. Ela está relacionada a outros pontos, como a ansiedade (já falei sobre isso), a exaustão, o estresse, a queda de energia, para citar alguns. E, claro, é uma doença que não vem acompanhada de uma única resposta. Às vezes, o tempo e os acontecimentos conseguem detoná-la, às vezes a meditação ajuda bastante, às vezes será preciso tomar remédios, e às vezes nada disso adianta. Como uma gripe.

É por isso que esse assunto tem que ser mais abordado. Ninguém ignora o fato de a gripe ser uma doença. Ninguém diz que alguém que tenha morrido de uma gripe morreu por falta de Deus no coração, ou porque foi um covarde, ou algo do tipo. Ninguém fala mal de alguém que está em casa de cama por uma gripe, mas existem muitos que apontam dedos para quem precisa pegar um atestado de 10 dias para tentar tratar de depressão ou ansiedade.

Na noite em que Bronnie decidira se jogar de uma ribanceira – o que ela chama de A Hora Mais Escura –, o telefone tocou mais uma vez. Não era o amigo de sempre. Era uma mensagem com um anúncio para seguro de ambulância.

A ligação a trouxe de volta à realidade. Era muito ridículo receber aquela ligação, naquele momento, nas palavras de Bronnie. Foi aquela ligação que mudou o curso da coisa toda. Não fosse aquela ligação, eu não teria tido acesso ao fantástico livro da Sra. Ware.

Quando eu era bem pequenininha, minha mãe teve pneumonia que quase a levou à morte. Em uma determinada noite, o médico ministrou um remédio do tipo tudo ou nada. Se ela não melhorasse, provavelmente passaria dessa para outra. Da noite para o dia, minha mãe estava curada.

De acordo com a Bronnie, aquela ligação foi o ponto de virada. Ele poderia ter vindo antes, mas poderia nunca ter chegado.

A rapidez com que as coisas mudaram depois foi fenomenal. A depressão desapareceu dentro da noite, levando embora com ela sua pesada nuvem de escuridão.

 

Canalizando energia em criatividade (e outras ideias) para manter a saúde em dia – ou retomar a saúde – e não doer por ser criativo

Depois da morte do Chester, conversei com a Lhorena Nayhara, psicóloga & fã de Linkin Park há muitos anos (ela sim é fã de verdade) para saber se gostaria que eu acrescentasse algo ao texto. Ela me presenteou um conceito da psicanálise chamado sublimação – que significa, em termos gerais, transformar dor em arte, como um mecanismo de defesa.

Calma, pera aí. Não é necessariamente transformar dor em arte. Vamos falar a verdade completa, aqui. Sublimação pode ser simplesmente o uso de algum artifício para descontar algo ruim em algo não necessariamente ruim. Se você tem vontade de bater nas pessoas, pode descontar isso em um saco de pancadas.

A judoca Rafaela Silva, ouro nas Olimpíadas do Rio, em 2016, fez isso durante a vida. A mãe percebia que ela era muito brigona com as outras crianças e conseguiu que ela começasse um treinamento em judô, uma estratégia que transformou sua parte briguenta em esporte.

O próprio Chester fez muito disso. A dor estava nas músicas. Todo mundo podia vê-la, muitos podiam senti-la. Ela só não era canalizada. Continuava lá. A sublimação como remédio já tinha virado água.

E aí volta aquela questão da criatividade, e aqui vai o meu conselho para você como criativo.

A arte pode falar tranquilamente sobre dor. Frida Kahlo fez isso, e tantos outros. A arte só não pode ser a razão de sua dor. Na verdade, eu ia escrever essa frase de um modo diferente: eu ia dizer que a arte não pode ser a fonte de sua dor, mas isso não deixaria o meu texto claro. A arte não pode ser a razão de sua dor, porque ela não pode te motivar a sofrer.

Certo dia, não faz muito tempo, conheci um redator publicitário que havia trabalhado em uma das maiores agências do Brasil, e havia criado campanhas para empresas de grandíssimo porte no país – campanhas premiadíssimas, inclusive. Um dos conceitos que ele criou levantou uma conta de um bilhão de reais para a agência. Não vou dar detalhes, porque não conversei com ele sobre compartilhar isso ou não, então poderia ser qualquer grande redator publicitário com uma grande conta de um grande cliente. Pronto.

O lance é: será que ele conseguirá criar um grande conceito para uma grande conta novamente, nos mesmos termos? Talvez sim, talvez não. E dane-se se não. Criatividade (lembre-se sempre disso)… criatividade não é sobre se superar. Isso é bobeira, isso é outro mito maluco. Eu até imagino o seguinte diálogo na cabeça da pessoa: minha melhor música é sobre dor. Essa dor teve origem em minha depressão… então, eu tenho que ficar cada vez mais deprimido para criar melhores músicas. E aí ferrou tudo. A coisa vai virando uma bola de neve.

Criatividade é sobre diversão, e criatividade como negócio é sobre diversão como negócio, po. Eu tenho convicção de que quando o Chester entrou no LP lá para o final dos anos 1990 ele queria se encontrar com os amigos, fazer o que ele fazia bem, e curtir a jornada, embora tudo pudesse parecer ser por fama. Alguma coisa no meio do caminho ficou perdida. Essa coisa não necessariamente era relacionada à música, mas, se fosse relacionada à música, a necessidade, a cobrança por superação dia após dia levava à fatiga, dia após dia.

Hey, só uma observação, aqui: eu não estou falando de acomodação. A criatividade é um jogo a se ganhar, também, e é um trabalho sério, que precisa de consistência. Não estou falando para você brincar de ser criativo o tempo todo. Estou dizendo para você lembrar de se divertir com o processo.

 

Como ajudar: um convite à empatia

Quando eu penso no que já perdemos com essa visão deturpada da criatividade para o suicídio, ou para o suicídio não necessariamente cometido, mas conquistado (pelas drogas), tenho uma onda de tristeza invadindo meu coração por ter perdido tantas pessoas boas para a doença cujas causas geram a menor empatia do mundo. Para citar alguns casos, há Michael Jackson, há Kurt Cobain (vocalista do Nirvana), há Elis Regina, há Ernest Hemingway (escritor). Enfim. Você sabe os nomes.

Se me perguntarem qual é o melhor a se fazer quando se quer ajudar na cura da depressão, a resposta será sempre a empatia. Eu não conheço nada melhor.

Como muitos têm dificuldade até em entender a empatia (quem dirá exercê-la), acredito que o melhor que posso fazer é compartilhar contigo a diferença entre simpatia e empatia, de um vídeo que vi em uma palestra sobre design thinking, no TCU. Basicamente, você pode demonstrar simpatia ao dizer algo como: “nossa, parabéns, você é demais, você é o melhor”. Que simpático você! Agora imagina uma pessoa sofrendo de depressão receber algo como: “poxa, mas você é tão bonita”. O que uma coisa tem a ver com a outra?

Demonstrar empatia, por outro lado, significa sentir o que a pessoa sente. Significa imaginar quão grande deve ser a dor dela, e participar dessa dor.

Não me interprete errado, aqui. Não estou dizendo para você pular da ponte ao mesmo tempo, depois do três. Estou dizendo para você demonstrar que entende perfeitamente o sofrimento. Estou dizendo para você confirmar – e reconfirmar – que reconhece a doença.

Em A Place For My Head, a banda diz: eu odeio quando você diz que não entende.

Simpatia:

  • “Poxa, você tem depressão? Que bom que você tem dinheiro, né?”
  • “Ah, você tem depressão? Poxa, que legal que você tem filhos!”

Empatia:

  • “Eu entendo perfeitamente o que você está passando…”

E, hey, o vídeo é este, caso você queira saber melhor sobre a empatia:

Agora é a sua vez

Criatividade, como eu falei, é sobre conexões. Uma coisa levou à outra e eu acabei criando este texto.

Nós também podemos ajudar a criar algo bom, daqui.

Eu sei que esse discurso é meio piegas, e parece o Didi perguntando se no céu há pão, no Criança Esperança, mas, assim como a do Didi, minha intenção também é das melhores. Ajude este debate. Você não precisa necessariamente compartilhar este texto (eu adoraria se você compartilhasse, é claro), mas pode comentar alguma coisa por aqui. Você pode compartilhar uma história, algo que deu certo para o seu caso, ou para o caso de algum amigo. Pode falar de alguma coisa que leu em algum lugar. Pode dizer sempre uma questão que acrescente e enriqueça este artigo.

Vá lá!

Hoje, especialmente, estou aqui para isso.

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